Pretendemos, neste texto, apresentar algumas anotações relativas à representação do fora-da-lei do sertão em nossa literatura, tendo em vista as noções de civilização e barbárie presentes nesta representação. São apenas algumas hipóteses, para a discussão, da pesquisa que começamos a desenvolver.
A partir de Antonio Candido, podemos discernir dois períodos da produção literária regionalista brasileira, na qual se insere a temática da violência rural: o da “consciência de país novo” e o “da consciência de país subdesenvolvido”[1].
Antonio Candido sugere que a noção de “país novo” – otimista no que se refere às grandes possibilidades de progresso no futuro – “produz na literatura algumas atitudes fundamentais, derivadas da surpresa, do interesse pelo exótico, de um certo respeito pelo grandioso e da esperança quanto às possibilidades.”[2] É próprio deste momento também o que chama de “aristocratismo” ou “Ideologia da Ilustração”, “segundo a qual a instrução traz automaticamente todos os benefícios que permitem a humanização do homem e o progresso da sociedade.”[3] Para Candido, tanto o “aristocratismo” quanto seu oposto, a valorização do regional em oposição à civilização européia – aqui tida como artificial em seu caráter estrangeiro – decorrem da nossa condição de país periférico. No primeiro caso, o intelectual atrela-se aos modelos europeus, criando para si o status de missionário, daquele que, possuidor da verdadeira cultura, pode instruir o povo, levando à evolução da pátria. No segundo caso, cria-se um Brasil idealizado, exótico, que, na maioria das vezes, é produzido para exportação, pois, paradoxalmente, esta literatura segue justamente o gosto europeu, faminto de exotismo. Em ambos, a dicotomia civilização e barbárie ocupa lugar central – a “consciência de país novo” é marcada por esta dicotomia.
O período da “consciência do subdesenvolvimento” caracteriza-se, ao contrário do que o precede, pelo pessimismo. Esta disposição reivindica a mobilização, a crítica da sociedade brasileira, a denúncia das deformidades do país, contra o mascaramento próprio do otimismo anterior. A consciência do subdesenvolvimento, para Candido, forma-se após a Segunda Guerra, sendo, no entanto, antecipada pela literatura regionalista da década de 30, com o “romance do Nordeste”. Esta consciência do subdesenvolvimento busca novas perspectivas para a interpretação das relações político-sociais brasileiras, investigando suas dinâmicas próprias, tentando escapar às visões eurocêntricas que permeiam o período da “consciência do país novo”.
Como romances que representam a violência rural próprios do período da consciência de país novo, podemos destacar O índio Affonso (1873), de Bernardo Guimarães, e O Cabeleira (1876), de Franklin Távora; como representantes do período da consciência do subdesenvolvimento, Cangaceiros (1953), de José Lins do Rego, e Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa.
Se nos nortearmos pela proposição de Candido, preocupando-nos mais em perceber as mudanças na maneira de se representar, de um romance para outro, a violência no meio rural, e menos em agrupá-los de maneira estanque e definitiva, podemos observar um processo gradual na direção de representar esta violência como um fenômeno social e de adentrar no universo rural – abandonando-se gradualmente a representação da voz urbana em sua função de julgar e acusar a barbárie dos modos e ações sertanejos. Temos, portanto, nos romances românticos, a representação da violência no campo como decorrente de desvio de caráter ou qualidade individual, o que é julgado pelo narrador e personagens de discurso confiável, porta-vozes da civilização.
No romance de J. L. do Rego, a voz urbana que orientava o leitor em seus julgamentos desaparece. No de G. Rosa, é o próprio jagunço Riobaldo que nos envolve em seus questionamentos sobre o bem e o mal, a culpa, a dor, a justiça, o amor... Estes dois autores representam a violência no meio rural como um fenômeno social, que transcende o nível individual das boas e más inclinações. Junto a isso, encontram-se em seus romances personagens com elevado grau de consciência, temos personagens “conscientizantes”, bem diferentes das personagens infantilizadas de Bernardo Guimarães e Távora.
Temos, como hipótese, que as mudanças na representação do fora-da-lei do sertão relacionam-se diretamente à crise da dicotomia civilização e barbárie, à suspeita de que os limites entre a civilização e a barbárie não são claros, talvez nem mesmo discerníveis.
Em O índio Affonso, a musa de B. Guimarães são as “selvas dos sertões”, uma musa tosca, alheia à civilização, bruta e assustadora – o que deve ferir as moçoilas leitoras do romance. Há a intenção de chocar, de apresentar um mundo não lapidado, em estado natural, titânico. Seus habitantes, os sertanejos, são “caboclos quase selvagens, sem a menor tintura de civilização, descalços e de chapéu de couro, tendo por único ornato uma comprida faca na cintura e um enorme cigarro na boca.” (p 15) Aqui, civilização é “tintura”, ou seja, artificial, falsificadora. Por “ornato”, ou objeto de caráter delicado e civilizador, temos a “faca”, objeto próprio da brutalidade. O cigarro, que caracteriza um hábito do sertanejo, não é simples cigarro, mas um enorme cigarro (como a faca, que é comprida faca), o que enfatiza o caráter disforme, na direção do grandioso, que será atribuído ao homem do sertão.
Nosso herói Affonso será apresentado como “o rei daquelas imensas solidões”, “tendo velocidade espantosa”, parecendo dominar o rio, e só temendo a polícia e a prisão, pois “amava sua selvática liberdade” (p 24). Affonso é um homem em estado original, puro, não lapidado e não corrompido pela vida em sociedade. Seu crime, pelo qual vive em conflito com a polícia, é descrito como um excesso de justiça – excesso próprio do selvagem; justiça própria do selvagem. Matou, com excesso de brutalidade, aquele que pretendera violentar sua irmã (respectivamente, Toruna e Caluta).
Affonso não só vive em harmonia com a Natureza, é irracional como ela. Não há, em momento algum, a narração de um esforço por parte dele de entender uma situação, de compreender o significado de qualquer fato – não há conflitos ou questionamentos. Affonso não demonstra utilizar-se da razão, dela prescinde. Como o rio que apenas corre, Affonso apenas age. Temos uma personagem que se dilui na paisagem, a real protagonista do romance. Affonso é apenas um dos elementos da realidade exótica construída por B. Guimarães.
Neste romance, os habitantes do sertão vivem em estado de “falta”. É a falta de educação apropriada, ou seja, religiosa e dentro do seio da família e da civilização, que se apresenta como causadora do império do crime, da ignorância e do vício. A Natureza, bela paisagem, é insuficiente para a plenitude do homem. Aqui, civilização não é apenas “tintura” mas própria da natureza humana, que dela precisa para firmar-se no bem. Enquanto índio Affonso faz parte do bem por não ter sido maculado pela vida em sociedade, Cabeleira se distancia do bem na mesma medida em que se distancia da cidade, da família e da religião, isto é, da civilização. Aqui, agir como fera é agir em direção ao mal. Há necessidade de educação que ensine o prazer no bem e o horror no mal – a civilização não corrompe o homem e sim possibilita sua salvação.
Franklin Távora propõe-se a contar uma história que instrua o leitor quanto à necessidade de se levar a civilização a todas as regiões do país. Cabeleira, herói do romance, será reduzido a uma “máquina de fazer crimes” por ser arrancado do seio materno, bom e cristão, pelo pai, Joaquim, “gênio da destruição”, pois a “floresta e ignorância apagaram sua consciência racional” (p 39). Joaquim é o extremo da maldade, o que se explica por não agir por meio da razão, mas por instintos selvagens.
Temos que, qualquer um, em qualquer época, que seja privado da vida em família e educação materna (aqui, da mulher é próprio educar segundo os preceitos cristãos) será reduzido à condição de fera, agindo em direção ao mal.
A mulher representa a família, a civilização e os valores cristãos. Será maltratada quando imperam a brutalidade, os vícios e o desregramento. Cabeleira perdeu-se de sua mãe, distanciando-se de Deus, e a ele retornará por meio de Luisinha, a quem nutrirá o sentimento puro do amor – oposto à lascívia, às pulsões sexuais próprias dos animais e desestabilizadoras da vida em sociedade. O leitor é, portanto, levado a confiar nas vozes femininas do romance, pois delas provém o discurso afirmado. Confia-se nelas da mesma maneira que no narrador, pois estes são os porta-vozes dos nobres valores, do bem, da civilização.
Luísa promoverá o retorno de Cabeleira ao bem. Este não existe autonomamente, sempre como consequência de uma influência. Primeiro agia para o mal, sob influência de Joaquim; depois para o bem, sob influência de Luísa. Tão pouco mostra refletir sobre suas ações que Cabeleira torna-se uma espécie de fantoche. De um momento para outro, passa a repetir o discurso das mulheres e do narrador, sem produzir um discurso próprio, fruto de suas experiências pessoais. Neste caráter plano, Cabeleira aproxima-se do índio Affonso de B. Guimarães. Poderíamos dizer que ambos são bárbaros no sentido mais próprio da palavra, em sua incapacidade de fazerem uso da linguagem para a ação e para a narração de suas experiências.
Cangaceiros
Em Cangaceiros as coisas mostram-se mais complexas: nos romances românticos o sertão é alheio à civilização; no de Rego, a cidade pouco se diferencia do sertão, neste encontramos suas “raízes”[4]. Os donos de terra, os homens que mandam no sertão, são os que mandam na cidade, no governo, no país. Aqui, a cidade não é representante da civilização: a ordem é a mesma, no sertão ou na cidade – a violência revela-se intrínseca à organização político-social brasileira.
Em Pedra Bonita (1937) – romance do qual Cangaceiros é continuação – temos a vida de Bento, nosso herói, no Açu, protegido do padre Amâncio, a quem fora entregue pela mãe, Josefina. Narra-se também sua viagem ao Araticum, à casa da família, em que conhece os irmãos e pais. Um de seus irmãos, Aparício, no meio tempo em que Bento lá estava, comete um crime que inclui a morte de um praça. Sem proteção, resolve cair no cangaço. Este fato parece, a Domício (o outro irmão de Bento) e Sinhá Josefina, confirmar a “sina dos Vieira”: a família traz a mácula da traição de um antepassado que levara tropas para acabar com o profeta da Pedra Bonita, o Filho. Seriam uma raça desgraçada, fadada a pagar, com o sofrimento, esta traição. Bento, no entanto, educado sob preceitos católicos, não aceitará facilmente um fado, pois esta noção desconsidera o livre-arbítrio. Este será o conflito ou questionamento interior de Bento: seu destino é pagar pelos seus antepassados ou pertence a ele? Até o fim do romance Cangaceiros, e talvez para além dele, tal dúvida permanece.
A série de aventuras e desmandos está a cargo dos “causos”. O romance é um tecido de várias narrativas: memórias e depoimentos das várias personagens que passam pela fazenda, cantigas e notícias de jornal[5]. Nestas narrativas temos as ações dos cangaceiros, por um lado, e das volantes ou tropas por outro. A violência indiscriminada perpassa todas elas, sem distinção entre o que fazem os cangaceiros e os soldados: uns como os outros estupram mulheres, torturam e matam indiscriminadamente. Tanto as tropas do governo quanto os cangaceiros agem por interesses pessoais, protegendo amigos e arrasando os inimigos. Não há poder público, não há verdadeiramente um governo: “Haja rei, haja presidente, manda Cazuza Leutério e está acabado”[6] – o poder sempre esteve nas mãos dos donos de terra, dos coronéis. Não havendo poder público, a vingança faz a vez da justiça. A impunidade move a violência no sertão. Nesta situação, o cangaço pode ser a única alternativa para que um homem recupere sua honra e conquiste o respeito dos fortes – mesmo que pelo terror.
Escapando ao monologismo próprio dos romances românticos abordados anteriormente, o romance Cangaceiros recupera alguns discursos neles presentes. Da mesma maneira que nestes romances, à personagem principal é possível escapar à violência através da fé católica. Porém, no romance de Rego temos algo mais complexo: a educação de Bento estabelece um conflito interior; nos outros romances não há conflito, há a afirmação crua e simples de que a falta de instrução e educação religiosa leva à barbárie. Em Cangaceiros há o confronto de visões de mundo; nos outros, sobreposição. Os ensinamentos do padre Amâncio, que marcaram a formação de Bento, levam-no a interpretar a realidade de maneira diversa da de seus pais e irmãos. No entanto, estes não são representados, de maneira alguma, como bárbaros. A fé no Santo, o profeta da Pedra, ou a queda no cangaço, não fazem destas personagens inferiores, infantilizadas, desprovidas de raciocínio, ou inclinadas ao mal. Se Bento tem a possibilidade de escapar aos sofrimentos que assolam o sertão não é por ter melhor caráter, inteligência ou bondade. Bento tem instrução, sabe ler e escrever, e é isto que pode fazê-lo alcançar estratos sociais completamente inalcançáveis aos outros sertanejos. Há mobilidade social possível para quem é alfabetizado; os analfabetos, ao contrário, estão confinados aos estratos inferiores da hieraquia social. Temos aqui a representação de uma situação observada na sociedade brasileira, não a prescrição da instrução e educação religiosa como solução a um possível estado de barbárie. Observamos, portanto, neste romance de J. L. do Rego, que a representação do contexto social em sua complexidade leva à revisão da dicotomia civilização e barbárie que norteia os romances de Távora e B. Guimarães.
Compreendendo Grande Sertão: Veredas dentro da tradição literária brasileira de temática regional, podemos perceber seu caráter completamente inovador: não estabelece a dicotomia civilização e barbárie da maneira que o fazem os romances regionalistas da “consciência de país novo”; tampouco tem caráter documental e crítico da sociedade brasileira (mesmo que represente da maneira mais precisa suas desigualdades sociais e relações de poder), como o fazem os da “consciência do subdesenvolvimento”. O fato de ser “outra coisa”, diferente de tudo o que havia como representação do cangaço, pode ser o que motivou Candido a considerar Grande Sertão uma obra “super-regionalista”. Candido define esta nova categoria como a superação do pitoresco e do documentário, “solidamente plantada no que se poderia chamar de universalidade da região”.[7]
Este “monólogo a dois”[8], em que Riobaldo, ex-jagunço, conta a um “Senhor Doutor” coisas por ele vividas, direciona-se a uma pergunta: Riobaldo quer saber se empreendeu o pacto com o diabo ou não. O narrador quer entender sua vida, revivê-la por meio da palavra na busca de compreender suas ações. Como explica: quando agia, não pensava; com a idade avançada, vivendo no ócio, deu para “especular idéia” (p 3).
Esta situação de interlocução já estabelece o encontro entre o universo urbano, civilizado, e o universo do sertão, alheio à civilização, do qual Riobaldo seria representante. No entanto, de maneira inusitada, da palavra é dono o ex-jagunço, o “senhor doutor” não tem a fala representada em momento algum, sendo uma presença silenciosa que acompanha toda a narrativa.[9] É Riobaldo quem narra e reflete sobre todo o fato narrado, o que já embaralha as categorias civilização e barbárie – pois à palavra bárbaro liga-se, etimologicamente, a incapacidade de produzir fala com significado, e o que temos é justamente a força da palavra do lado de Riobaldo. Ao contrário do índio Affonso de B. Guimarães ou do Cabeleira de Távora, temos a representação de um jagunço extremamente inteligente, dotado de consciência e conscientizante. As determinações de classe aparecem, em Grande Sertão: Veredas, ao contrário do romance de Rego, através do olhar e reflexão de Riobaldo, ou seja, esta personagem não é explicada por fatores alheios à sua consciência.[10]
Aqui, as categorias civilização e barbárie, as noções de progresso, atraso ou decadência, aparecem mobilizadas por esta consciência que vemos representada. Parece-nos, portanto, que, para perseguirmos a maneira pela qual são abordadas as categorias de civilização e barbárie neste romance, é necessário que estejamos atentos para o que move esta consciência, seu princípio organizador ou construtor da realidade.
Em Grande Sertão: Veredas o pacto é central, implicando na questão da real existência do diabo. Ainda nas primeiras páginas do romance, Riobaldo levanta a questão: “O diabo existe e não existe?” (p 3). A conjunção aditiva “e”, no lugar da alternativa esperada “ou”, aponta para o princípio organizador do romance, para a maneira pela qual Riobaldo interpreta a realidade. A direção da pergunta não é a exclusão de um dos pólos – o ser e o não ser – mas a convivência de ambos: “Tudo é e não é” (GS: V, p 3)[11]. A ambiguidade, como tem sido proposto a partir de Candido[12], parece permear em vários níveis esta narrativa. Pensamos, até o momento, que as categorias civilização e barbárie serão rearranjadas a partir deste mesmo princípio. Como propõe Walnice Nogueira Galvão[13], desta ambiguidade decorre a “coisa dentro da outra”, ou seja, o ser que inclui o não ser. Em Grande Sertão, a civilização inclui a barbárie; a barbárie, a civilização. A “cena do julgamento”, que ocupa o centro da narrativa, é momento de “ordem na desordem”. Riobaldo nos prepara para o sofrimento máximo, a destruição total, o assassinato de Zé Bebelo com as crueldades todas. Mas o que se dá é a solução do conflito por meio da linguagem, de um julgamento, da ponderação que leva à absolvição do réu. Temos a sugestão de uma ética na jagunçagem, inesperada para Zé Bebelo – representante dos discursos civilizatórios e afirmativos do progresso, da lei e da urbanização.
Passar pelo julgamento faz Zé Bebelo reconsiderar o caráter bárbaro que atribuía ao homem do sertão. Como no romance de Rego, jagunços e soldados pouco diferem – o projeto civilizador do Governo é bárbaro; a barbárie dos jagunços relativizada. Porém, se no romance de Rego esta aproximação tem o caráter de crítica da sociedade brasileira, no de Rosa tem uma dimensão mítico-metafísica. Ou seja, não se trata apenas da representação de um momento da sociedade brasileira – as referências espaço-temporais são mesmo nebulosas – trata-se da interpretação figural deste momento histórico. Aqui, a convivência das categorias civilização e barbárie num mesmo espaço-tempo é uma das atualizações do ser e não ser. Não apenas a barbárie contém a civilização mas o leproso contém sangue puro, a mandioca venenosa contém alimento, o diabo existe e não existe, etc. Todo cosmos, para Riobaldo, parece estruturar-se por este princípio.
Últimas anotações
Parece-nos que, no romance Cangaceiros, a crise da noção de civilização está fortemente presente na acusação do caráter bárbaro do mundo civilizado – seu “progresso” se dá através da exploração do homem pelo homem: o desenvolvimento da civilização reifica o homem, trazendo em si, portanto, a barbárie. O sertão é o abandono, é onde a vida vale pouco, é o produto mesmo da civilização. Cidade e sertão pouco se diferenciam justamente por serem ambos regidos pela mesma lei: a do capital.
Como dizer o que é o sertão em Grande Sertão: Veredas? Interessa falar desta dificuldade, talvez impossibilidade, de se definir qualquer coisa em Grande Sertão. Parece-nos que, neste romance, a crise da oposição civilização e barbárie se transfigura na crise mesma da racionalidade Ocidental. A narrativa de Riobaldo é fluida, construída de contrários que não se contradizem. Nas palavras de Davi Arrigucci Jr.: “A justaposição dos termos do título, em que grande sertão se abre para as veredas, pode reforçar ainda, retrospectivamente, a impressão metafórica de labirinto fluvial, do intrincado miúdo das águas e dos caminhos no interior do espaço maior, abrindo-se para o múltiplo e o desconcerto.”[14] Ainda segundo Arrigucci, este romance de Rosa é mescla em todos os níveis. Poderíamos dizer que Grande Sertão é um tecido de infinitas relações, bem distante das bases analíticas desta racionalidade em crise. Talvez daí venha nossa dificuldade em aplicar nosso arsenal analítico em Grande Sertão, em definir qualquer coisa: o que Riobaldo nos apresenta é fluido, parece que se define para logo depois se indefinir, todas as coisas são e não são, e sempre a dúvida é a melhor maneira de dizê-las.
Referências Bibliográfcas:
ARRIGUCCI JR., Davi. “O mundo misturado: romance e experiência em Guimarães Rosa”. In: América Latina: palavra, literatura e cultura. Org. Ana Pizarro. São Paulo: Memorial/ Unicamp, 1995.
BOLLE, Willi. O pacto no Grande Sertão – Esoterismo ou lei fundadora? Revista USP, 36 (1997-98).
CANDIDO, Antonio. Literatura e Subdesenvolvimento. In: América Latina em sua Literatura. Org. César Fernandez Moreno. São Paulo: Perspectiva, 1960
____. “Jagunços mineiros de Cláudio a Guimarães Rosa”, in Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1995.
GALVÃO, Walnice Nogueira. As formas do falso. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972.
GUIMARÃES, Bernardo. O índio Affonso. Rio de Janeiro: Garnier, s/d.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. RJ: José Olímpio, 1973.
REGO, José Lins do. Cangaceiros. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1973.
____. Pedra Bonita. Rio de Janeiro: José Oympio Editora, 1973.
ROSA, J. Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986.
SPERBER, Suzi Frankl. Caos e Cosmos: Leituras de Guimarães Rosa. São Paulo: Duas Cidades, 1976.
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Rio de Janeiro: Editora Três, 1973.
[1] Candido, Antonio. Literatura e subdesenvolvimento.
[2] idem, p. 343
[3] idem ibidem.
[4] Sérgio Buarque, em seu Raízes do Brasil, toma a herança rural como decisiva para a confusão entre o público e o privado, confusão esta que parece definir o brasileiro e seu país: “Nos domínios rurais, a autoridade do proprietário de terras não sofria réplica. Tudo se fazia consoante sua vontade, muitas vezes despótica.(...) O quadro familiar se torna, assim, tão poderoso e exigente , que sua sombra persegue os indivíduos mesmo fora do recinto doméstico. A entidade privada precede sempre a pública.” (p. 80-2)
[5] O confronto do que narram as notícias de jornal com o que se mostra história verdadeira leva o leitor a questionar a Imprensa. O menino Zé Luís, que é preso antes mesmo de participar de qualquer batalha no grupo de Aparício, é descrito como das mais terríveis feras do sertão, cangaceiro de mais de vinte mortes nas costas (p 214). Tal se dá para que se valorize o feito do Tenente que o prendera, ao mesmo tempo produzindo uma imagem de cangaceiro animalizada, feroz, que promove o terror na cidade e legitima as incurções militares que arrasam o sertão. Temos representados os mecanismos produtores da imagem do sertanejo como bárbaro, justamente a imagem produzida pelos romances românticos por nós destacados.
[6] REGO, José Lins do, Cangaceiros, p 39.
[7] Candido. Literatura e subdesenvolvimento, p 362.
[8] Termo proposto por Schwarz em seu artigo “Grande Sertão e Dr. Faustus”, v. bibliografia.
[9] Sobre este “monólogo a dois”, Willi Bolle sugere que “No fundo, esse monólogo de Riobaldo, emoldurado por um diálogo virtual com um interlocutor urbano, configura um projeto de grande envergadura, que poderia ser intitulado Grande Sertão, Cidades – de acordo com a informação dada por uma estudiosa e correspondente de Guimarães Rosa. (...) parece frutífero tomar este título virtual como uma indagação sobre os fundamentos do projeto civilizatório no Brasil e sobre o próprio conceito de civilização.” ( “O pacto no Grande Sertão – esoterismo ou lei fundadora?”. p 29.
[10] Poderíamos pensar simplesmente que se em Grande Sertão temos um narrador-personagem, a óbvia conseqüência seria tudo passar por sua consciência. No entanto, se pensarmos em outras obras em que a situação é semelhante, um narrador-personagem narrando de memória a própria vida, como em São Bernardo de Graciliano Ramos, podemos perceber que tal conseqüência não é tão óbvia assim. Paulo Honório não é consciente do ódio de classes que perpassa seu conflito conjugal, mesmo que este determinante seja claro para nós, leitores.
[11] A partir do ensaio “Caos e Cosmos”, de Suzi Sperber, in Caos e Cosmos: leituras de G. Rosa. p. 110 e 127
[12] “O homem dos avessos”. p. 134-5.
[13] Galvão, WalniceAs formas do falso, p. 121 e 128
[14] Arrigucci Jr., Davi. “O mundo misturado: romance e experiência em Guimarães Rosa”, p. 469